Escritos
Notas de consultório e de leitura sobre sentido, escolha e finitude. Textos curtos, escritos para quem já desconfia que compreender não basta.
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Assinar no SubstackSobre o domingo à tarde
Ou: por que o vazio aparece justamente quando nada dói
A louça estava lavada. Isso é o mais importante da cena, e eu peço um pouco de paciência antes de explicar por quê. Era domingo, quatro da tarde, a louça lavada, a roupa dobrada, as contas pagas, o filho no quarto com o fone no ouvido. Nada faltava. E foi exatamente ali, com a casa em ordem, que ele sentiu aquilo que não sabia nomear e que, na sessão seguinte, chamou de “um buraco”.
Por que o buraco não aparece na segunda-feira?
Segunda-feira tem trânsito, tem reunião, tem o relatório que não fecha. A segunda-feira é generosa: ela oferece problemas, e problema é uma forma de sentido. Enquanto existe algo a resolver, a pergunta pelo para quê fica em silêncio, educada, esperando a vez. O domingo à tarde é cruel porque é honesto. Ele retira os obstáculos e deixa a pessoa sozinha com a própria vida.
Viktor Frankl, que atravessou coisas que nós não atravessamos, observou que o vazio existencial se manifesta sobretudo no tédio. Ele estava falando dos domingos. Chamou aquilo de neurose de domingo: a angústia que sobe quando o corrido do trabalho cessa e o vazio interior se torna audível.
Na clínica isso aparece quase sempre pela porta dos fundos. Ninguém marca uma sessão dizendo “minha vida perdeu o sentido”. As pessoas dizem que andam cansadas, que não estão dormindo bem, que perderam a paciência com os filhos. Vêm pelo sintoma, pois o sintoma tem legitimidade social. Depois, em algum lugar da terceira ou quarta sessão, quando já estamos os dois um pouco mais à vontade, alguém diz a frase inteira: “eu não sei mais para que estou fazendo isso tudo”.
Aí o trabalho começa.
Repare que ninguém adoeceu. O homem da louça lavada não tem transtorno nenhum. Ele tem uma vida funcional e uma pergunta sem resposta, e essas duas coisas podem conviver por décadas sem que ninguém perceba, sobretudo se a agenda for cheia o bastante. A produtividade é o analgésico mais aceito da nossa época. É barato, é legal, e ainda rende elogio na avaliação de fim de ano.
O que costuma me interessar, quando alguém chega assim, não é o vazio. É a pressa de tapá-lo. As pessoas chegam querendo um método, uma rotina nova, um curso, um propósito para segunda de manhã. Querem que eu devolva o barulho. E eu, que também gosto de barulho, preciso fazer o contrário: sustentar o silêncio por tempo suficiente para que a pergunta se formule inteira. Pois pergunta mal formulada só produz resposta errada, e a maior parte das crises de sentido que vejo não é falta de resposta. É excesso de resposta apressada.
O vazio não é o inimigo. Ele é o único momento em que a sua vida fala sem ser interrompida.
E você, o que faz no domingo à tarde?
Sobre a vertigem de escolher
Ou: o que Kierkegaard viu à beira do abismo
Ela chegou com uma planilha. Duas colunas, salário, plano de saúde, tempo de deslocamento, possibilidade de crescimento, cada linha com peso de um a cinco e um total no rodapé que apontava, sem margem para dúvida, a proposta B. Tinha refeito a conta três vezes. E não conseguia aceitar o emprego.
“Se está tudo aí, por que eu não consigo?”
Porque a planilha responde outra pergunta. A planilha responde qual emprego é melhor. Ela queria saber quem ia ser depois de escolher, e para isso não existe coluna.
Kierkegaard tem uma frase que eu uso mais do que deveria: a angústia é a vertigem da liberdade. Ele descreve o homem à beira do abismo e observa que o medo não vem apenas da profundidade lá embaixo. Vem também da descoberta de que ele pode se jogar. A vertigem é a percepção do próprio poder. Diante do abismo, o que assusta não é cair. É poder.
Quem nunca teve escolha alguma não conhece esse tipo de angústia. Conhece outros sofrimentos, provavelmente piores. Mas a paralisia diante de duas boas opções é um sofrimento de gente livre, e convém não confundir as duas coisas dentro do consultório, pois tratar uma como se fosse a outra é erro grosseiro.
Na prática, o que costuma travar não é a dúvida. É a fantasia de que existe escolha sem perda. Toda decisão real mata uma vida possível. Aceitar a proposta B é enterrar a mulher que teria aceitado a proposta A, e ninguém faz esse enterro sem sentir alguma coisa. O que se apresenta como indecisão é, quase sempre, luto antecipado.
Aí a conversa muda de assunto. Deixamos a planilha de lado, coisa a que ela resistiu bastante, e passamos a falar do que ela se recusava a perder. Não demorou muito.
Há um detalhe clínico que vale registrar: pessoas assim raramente escolhem errado. Elas escolhem tarde. Ficam meses girando, adiando, pedindo mais uma opinião, e o custo não está na escolha final, está no tempo em que a vida ficou em suspenso à espera de uma certeza que não vinha. A certeza não vem antes. Ela se fabrica depois, no trabalho de habitar o que se escolheu.
Você não decide porque tem certeza. Você tem certeza porque decidiu, e depois sustenta.
Do que você tem medo de perder?
Sobre contar os dias
Ou: a finitude como conselheira, e não como ameaça
O exame estava normal. É importante começar por aí, pois foi assim que a história terminou, e mesmo assim ela mudou a vida dele. Homem de cinquenta e quatro anos, rotina anual, um marcador alterado, quinze dias até o segundo resultado. Quinze dias.
Ele me contou depois que na primeira noite fez uma lista. Não dessas listas de internet, com pirâmide e aurora boreal. Uma lista de pessoas para quem precisava ligar. Tinha quatro nomes: o pai, um irmão com quem não falava havia seis anos, um amigo de faculdade e a filha mais velha, com quem falava todo dia sobre logística e havia muito tempo sobre nada.
Quatro nomes. Cinquenta e quatro anos.
Não há nada de original em dizer que a morte organiza a vida. Montaigne já dizia que filosofar é aprender a morrer, e o salmo pede que o Senhor nos ensine a contar os nossos dias, para que alcancemos coração sábio. O que me interessa não é a frase. É o mecanismo. Por que é preciso um susto para que um homem ligue para o próprio irmão?
Minha suspeita é que vivemos administrando um saldo que supomos infinito. Não que alguém se creia imortal, ninguém é tolo a esse ponto. É que a morte fica guardada num tempo verbal muito cômodo, o futuro distante, e o futuro distante não cobra nada hoje. A ligação para o irmão pode ser no mês que vem. A conversa de verdade com a filha pode ser quando ela estiver mais tranquila. Adiar é de graça enquanto o saldo parece infinito.
O diagnóstico, quando chega, não acrescenta informação nenhuma. Ele apenas transporta um fato que você já sabia do futuro distante para o presente. E o presente cobra.
Na clínica eu vejo isso de dois modos. Há quem, diante da finitude, encolha: para de fazer planos, para de investir, para de amar gente nova, pois amar gente nova é aceitar perder mais tarde. E há quem faça o contrário, e essa é a parte bonita do ofício, quem descubra que uma vida com prazo é a única espécie de vida capaz de urgência, de densidade e de escolha. A finitude não rouba o sentido. Ela é a condição dele. Um tempo infinito não precisaria de decisão alguma, pois tudo caberia.
Ele ligou para os quatro. O irmão foi o mais difícil e demorou três semanas, já com o segundo exame normal na gaveta. Poderia ter desistido. Não desistiu, e é isso que importa da história toda.
Você não precisa de um susto. Você precisa de uma lista.
Para quem você ligaria?
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